Devaneios da madrugada: Redescobrindo o Cliffhanger

Estou escrevendo esse texto na noite de quinta para sexta-feira, dia 15 de outubro, precisamente uma semana após assistir ao episódio final da segunda temporada de The Boys.

Foi ao longo dos últimos quatro episódios do segundo ano da série que me peguei pensando sobre como a espera pelo capítulo da semana seguinte é uma das experiências mais bacanas de assistir um seriado. (Não estou contando aqueles que tem episódios com histórias fechadas toda semana.)

Se os primeiros quatro capítulos desse novo ano da história de Butcher, Hughie, Kimiko, Frenchie e MM contra os Seven, liderados pelo sociopata Homelander, não foram lá grandes coisas, a partir do quinto as coisas começaram a andar. Com mais espaço para Stormfront e a crítica que a série faz sobre redes sociais, fanatismo, fascismo, fama e política, os ganchos deixados ao fim de cada episódio me deixavam sedentos para a próxima quinta/sexta.

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Essa estratégia de lançar episódios semanais foi uma novidade na nova temporada, já que a primeira seguiu os passos tradicionais do streaming de lançar tudo de uma vez. Novidade essa que já chegou cheia de críticas e ataques enfurecidos nas redes de gente que não queria “ficar sem a minha série favorita completa para eu ver tudo logo”.

Sim. O streaming acostumou muito mal os espectadores e eu me incluo nessa. Lembro que assinei a Netflix para poder assistir a primeira temporada de Narcos e em dois dias todos os episódios já haviam sido devorados. Daí veio Stranger Things, Mindhunter, as séries da Marvel, Dark, os reality shows de competição… e várias outras temporadas dessas mesmas séries ao longo dos anos.

Então fiquei pensando: o quanto eu aproveitei dessas “séries maratonadas”? O quanto eu me diverti com a segunda ou terceira temporada de Stranger Things assistindo tudo em um, dois dias, por exemplo? Eu nem me lembro direito dessas temporadas. Lembro principalmente de alguns acontecimentos, como a batalha contra o Demogorgon na escola, Eleven fechando o portal para o Mundo Invertido, a luta contra o monstro no shopping… E o que tudo isso têm em comum? Todos são acontecimentos dos últimos episódios de cada ano.

O cliffhanger, o "gancho" no final dos episódios, que deixavam as pessoas conversando durante a semana toda, virou papo de quem maratona tudo correndo e tem que esperar um ano para ver novamente a “série de um”. A empolgação e a teorização, que sempre foi um dos pontos altos das produções badaladas, deixou de acontecer 8, 10, 12, 24 vezes por temporada, para virar uma emoção que dura cinco segundos, até que o próximo episódio comece automaticamente.

Eu me lembro que uma vez, quando assistia “24 Horas”, depois do Jornal da Globo. Durante a terceira temporada, o episódio de sexta-feira terminou com Jack Bauer sendo chantageado por um terrorista e apontando uma arma para a cabeça do diretor da CTU, Ryan Chappelle. Eu e o meu irmão passamos o fim de semana inteiro bolando planos de como Bauer sairia daquela situação sem matar o chefe (os episódios era de segunda a sexta). Lembro como se fosse ontem, na segunda-feira, a empolgação que estávamos para o início do episódio era absurda e aprendemos uma lição dura sobre a “teorização”.

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Ao longo dos últimos anos, séries se consagraram com episódios assim. O final de “Deus Ex-Machina”, da primeira temporada de Lost, a revelação de quem planejou o assassinato de David Palmer, também de 24 Horas, o Casamento Vermelho e tantos outros acontecimentos de Game of Thrones, até a mais recente Watchmen e suas revelações de Adrian Veidt e Dr. Manhattan. Aliás, Watchmen, assim como The Boys, também foi uma das responsáveis por reacender essa minha vontade de ver um episódio de cada vez. As séries da HBO são magistrais em deixar ganchos ao longo de toda a temporada e um maior ainda ao final.

E sim, os ganchos finais são por si só memoráveis. Não estou desmerecendo em momento nenhum eles. Do “eu te aceito Rachel”, de Friends, ao “Casino Night”, de The Office, passando pelo Negan matando “alguém” no final da sexta temporada de The Walking Dead e as cenas do BTK, de Mindhunter, os cliffhangers dos finais são importantes. Isso nem é tão moderno assim. Arquivo X, Buffy e Star Trek: A Nova Geração já faziam isso na década de 90, por exemplo. (Só para deixar claro, estou citando apenas séries que assisti)

A questão é: os ganchos ao longo da temporada são tão importantes ou mais que o do final. São eles que geram interesse, burburinho.

Enquanto a HBO fideliza seu assinante por três, quatro meses, gerando papo todo domingo, a Netflix cria buzz em um fim de semana e na sexta-feira seguinte já está empurrando outra série goela abaixo. Se você não assistir logo, problema seu, alguém fará e vai encher as redes sociais com os tão temidos spoilers, as teorias que não vão deixar você pensar e, claro, o mal do século: o final explicado.

E aí, esse tipo de lançamento vai lotando a sua watchlist, você não dá conta de assistir tudo o que queria. Para conseguir, segue maratonando.

Um exemplo desse consumismo de efemeridades é a queridinha da internet: Dark. Será que a série é realmente tão complicada assim, que as pessoas ficavam chocadas por não estarem entendendo nada? Ou será apenas que, sim, não há tempo para essa mesma pessoa pensar e digerir o que foi assistido até que o próximo episódio comece logo. As pessoas não entendem, porque o cérebro absorve tanta informação (e aqui nesse caso, propositalmente mal entregue para criar essa sensação) que elas nem lembram o que aconteceu nos capítulos anteriores. As pessoas estão de frente para a TV vendo as imagens e não assistindo ao conteúdo.

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Mas mesmo pensando assim, mesmo depois de Watchmen, Mandalorian, The Boys e já pensando em WandaVision, que também será um por semana, sim, continuo consumindo desenfreadamente outras séries em streaming. Foi assim com Cobra Kai (duas temporadas em menos de uma semana), com Campeões do Barbecue (dois dias) e será assim com outras.

O episódio semanal pode até voltar a ganhar força com as dificuldades criadas pela pandemia nas produções. Lançar um por semana ajuda a dar tempo para pós-produção, por exemplo. Mas a “maratona” é o formato de consumo de série mais popular nos últimos anos e ainda será por um tempo. Aquele prazer do imediatismo, que será substituído pelo próximo conteúdo imperdível em 5, 4, 3, 2, 1…

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Cinema, TV e música. Cinéfilo na veia, música em todos os tempos livres e TV naquela hora do sofá.

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