É impressionante como a arte pode nos unir de diversas formas. Na tarde/noite da última sexta-feira, dia 28 de agosto, estávamos gravando o episódio do Cinemou! sobre Tenet, o primeiro filme que fomos assistir no cinema depois do lockdown aqui em Vancouver. Estávamos rindo, discutindo a “genialidade” do Nolan, até que ao pegar o celular após a gravação, a notícia da morte de Chadwick Boseman nos destruiu. Após alguns palavrões e expressões de incredulidade, apenas o silêncio da perda. A perda de um símbolo, de um jovem, de um amigo que nunca conhecemos. E é por isso que digo que a arte nos une. Cada um com seu sentimento sobre Chadwick, mas ambos devastados pela sua perda e pelo que ele representa. E esse sentimento seguiu por cada mensagem que lemos nas redes sociais, cada uma de sua forma, cada um vendo em Chadwick como um símbolo, jovem ou amigo.

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Conheci o Chadwick lá em 2016, quando assisti “Capitão América: Guerra Civil”. Na verdade, já tinha ouvido seu nome na época do lançamento de “42 — A História de uma Lenda”, na época, apenas um filme de beisebol que havia chegado ao topo das bilheterias americanas. Mas foi com um papel secundário na briga entre Steve Rogers e Tony Stark, que ele ficou marcado na minha memória pela primeira vez. E logo depois, descobri que ele já tinha sido o pai do Soul, James Brown, em “Get on Up”. O “menino” tinha talento mesmo.

Entretanto, foi em 2018, um pouco antes de vir morar no Canadá, que Chadwick entrou na minha vida de verdade. Foi com “Pantera Negra”, o último filme que assisti no Brasil antes de viajar, que eu descobri de verdade quem ele era. Chadwick e seu T’Challa eram muito mais do que simples super-heróis, eles eram um símbolo muito maior. Um ícone que mudaria a cultura pop a partir daquele mês de fevereiro. E isso realmente aconteceu. Chadwick, Michael B. Jordan, Ryan Coogler, Angela Bassett, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Letitia Wright, Ruth E. Carter e tantos outros levaram representatividade, força, luta, esperança e alegria para milhões e milhões de pessoas. Foram mais de 1,3 bilhão de dólares arrecadados, bonecos, fantasias e milhares de outros produtos lançados com o rosto de Chadwick estampado na caixa. “Wakanda Forever” se tornou mais que um lema do país fictício criado por Jack Kirby e Stan Lee. Virou um símbolo de resistência. A mesma resistência que era símbolo dos Panteras Negras e daqueles que lutaram pelos direitos civis e inspiraram a criação de seu personagem.

Um ano após a estreia do seu filme e de ter comandado o exército de Wakanda contra Thanos em “Guerra Infinita”, Chadwick estava em todos os tapetes vermelhos das premiações de Hollywood. Sempre com seu sorriso de canto de boca, carisma e um discurso afiado. Subiu ao palco com seus companheiros para pegar o prêmio de melhor elenco do Sindicato dos Atores. Viu seu filme fazer história no Oscar. E poucos meses depois, voltava do estalo de Thanos, através dos portais do Doutor Estranho, para ajudar seus companheiros a derrotar de uma vez por todas o Titã Louco.

Ao longo desse período todo, ainda assisti ao Chadwick interpretar Thurgood Marshall, primeiro afro-americano a chegar na Suprema Corte dos Estados Unidos, em um filme com pouco destaque na mídia, mas que mostra seu talento e sua luta por representatividade.

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Vindo morar fora conheci mais sobre beisebol e a história de Jackie Robinson, aquele primeiro papel dele que falei aí um pouco antes. Robinson foi o primeiro jogador afro-americano da MLB, a liga de beisebol mais importante do mundo. Não à toa, Spike Lee utiliza a camisa de Robinson em “Faça a Coisa Certa” e em diversas situações em que aparece na mídia. A camisa 42 de Jackie Robinson foi aposentada em todos os times da liga e é um dos grandes símbolos de resistência e luta contra o racismo.

Falando em Spike Lee, o último encontro que tive com Chadwick foi no ótimo “Destacamento Blood”, que o diretor fez para a Netflix. Nele, Boseman interpreta Stormin Norman, líder de um grupo de soldados negros na Guerra do Vietnã, que morre durante o conflito. Norman é um ícone de resistência e aprendizado para os jovens soldados, uma força que os ensina que a guerra que eles devem travar é muito maior que aquela. É a que acontece no bairro de suas casas nos EUA.

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A verdade é que eu não estava pronto para ter que me despedir de Chadwick agora. Não nesse 2020, não nesse momento em que sua imagem como T’Challa, Marshall, Robinson ou Norman é tão importante para o que está acontecendo nos EUA e no mundo. A verdade é que no meu pensamento egoísta, eu queria vê-lo de novo sendo o rei de Wakanda, cruzando os braços e liderando o seu povo. Porque eu não tenho vergonha de dizer que, depois de “Pantera Negra” e as coisas que estudei e pesquisei na época, eu também me tornei uma pessoa melhor. E o carisma, o sorriso, o tom da fala de Chadwick foram imprescindíveis para o sucesso do filme, da simbologia que o personagem carrega e do tanto que o filme representou para milhões.

Você vai fazer falta, amigo. Mas como disseram, a sua imagem já está na cultura pop, nas páginas dos livros, das revistas, dos sites, das camisas, dos bonecos…

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Chadwick é T’Challa e desde que você vestiu a roupa do Pantera Negra, T’Challa é você, meu camarada. E isso ainda vai durar muito tempo. Pode ter certeza. Uma geração de meninos e meninas vai crescer com Chadwick sendo o seu herói favorito.

Vá em paz, Chadwick. Assim como falaram de Jackie Robinson: quem sabe amanhã todos usemos 42, para que ninguém mais consiga nos diferenciar. Quem sabe, né? Mas pode ter certeza que você fez a sua parte.

Seu amigo, Alexandre.

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Cinema, TV e música. Cinéfilo na veia, música em todos os tempos livres e TV naquela hora do sofá.

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