Por que Pantera Negra merece o Oscar?

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Nos últimos dias, Pantera Negra vem sofrendo diversos ataques desde a sua indicação ao Oscar de Melhor Filme. A nomeação da produção do Marvel Studios é acusada de ser “lacração” e apenas justificada por uma “cota” que o Oscar está preenchendo ao longo dos últimos anos.

A primeira coisa a ser dita é que a utilização do termo “lacração” de forma pejorativa e debochada, tem sido o maior argumento daqueles que desmerecem lutas e movimentos sociais. Pessoas que não entendem que o sucesso de uma música, um artista, uma imagem, um filme ou um post nas redes sociais pode representar muito mais. É ser egoísta ao ponto de não aceitar que o outro seja melhor representado ou que se expresse de forma contrária.

Pantera Negra é um sucesso consolidado de público e crítica. Os números do filme mostram isso: mais de 1,3 bilhão de dólares de arrecadação no mundo todo. US$ 700 milhões apenas nos Estados Unidos e destaques para mercados como o Reino Unido (US$ 70 milhões), Brasil (US$ 36,9 milhões), França (US$ 33 milhões) e, claro, o mercado asiático com China e Coréia do Sul (US$ 105 milhões e US$ 42,8 milhões, respectivamente). O filme acumula 97% de críticas positivas no Rotten Tomatoes, com uma avaliação média de 8.3, e classificação 88 no Metascore, do Metacritic, que cria uma média ponderada do julgamento das produções. Só para olharmos outra produção, o badalado (e sensacional) O Cavaleiro das Trevas, que tem sido utilizado exaustivamente como forma de comparação do porquê Pantera Negra não deveria ter “chegado lá”, acumula 84 no Metascore e 94% no RT, com média de 8.6.

Aliás, comparar o filme de Christopher Nolan com Pantera é mais uma bobagem repetida à exaustão. Se a história do Rei T’Challa está na principal categoria do Oscar, muito provavelmente, é devido ao sucesso do Cavaleiro das Trevas e a campanha que os fãs fizeram para o filme estar lá em 2009, que não surtiu efeito entre os votantes da Academia. Com todas as críticas e pressão do público que se sentiu esnobado pelos “inteligentes”, em 2010, a premiação passou a ter até 10 filmes indicados para poder valorizar os mais “populares” e assim aumentar sua audiência. No primeiro ano tivemos sucessos de bilheterias como Avatar (a maior arrecadação da história), Up — Altas Aventuras (desenho animado da Pixar) e Um Sonho Possível (mais de US$ 300 milhões de bilheteria). Nos anos seguintes tivemos um ou outro filme de apelo realmente popular, mas o Oscar voltou a ser dominado por produções de circuitos reduzidos.

Nesse período foram especulados ao prêmio principal filmes como Cavaleiro das Trevas Ressurge, Guardiões da Galáxia, Logan, Mulher Maravilha, mas nenhum chegou perto. Agora, 10 anos depois, enfim, Pantera Negra chegou lá. E chega somando tudo o que foi dito anteriormente com uma história clássica de herói buscando o seu lugar, personagens carismáticos, um vilão com motivações reais e que traz para a trama um discurso político atual. Tudo acompanhado do selo de uma das maiores marcas do entretenimento, o Marvel Studios.

Além disso, Pantera Negra é representatividade. Desde a sua escalação de elenco, majoritariamente negro, com nomes de peso e premiados como Forrest Withaker, Angela Bassett, Lupita Nyong’o, Sterling K. Brown, Danai Gurira e expoentes como Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Daniel Kaluuya, Winston Duke e Letitia Wright. Elenco esse que foi consagrado pelo sindicato dos atores, o SAG, com o prêmio na categoria principal esse ano.

A produção também tem grandes nomes que agregaram mais valor e mais conceitos representativos por trás das telas, como o diretor Ryan Coogler, que trouxe a sua bagagem de histórias urbanas como Fruitvale Station e Creed. Os figurinos detalhados e cheios de simbologia, são assinados por Ruth E. Carter (que também concorre ao Oscar pelo filme), profissional que sempre trabalhou com Spike Lee, inclusive em Malcolm X, e esteve em produções como Selma, Marshall e Black Dynamite. E ainda podemos citar a design de produção responsável pela criação do mundo de Wakanda, que engloba diversos conceitos culturais africanos, Hannah Beachler. Ela é a primeira mulher negra indicada a um prêmio da Academia na categoria Design de Produção e também responsável por “pequenas” obras como Lemonade, da Beyoncé, Creed e Moonlight.

O fenômeno Pantera Negra ainda alcançou o topo da Billboard com a trilha sonora produzida e interpretada em algumas faixas pelo rapper Kendrick Lamar, um dos maiores nomes do cenário na atualidade. A faixa “All the Stars”, com Lamar e SZA, também está concorrendo ao Oscar e é uma das partes mais leves de um disco que traz canções que dialogam com o filme sobre conflitos, dificuldade vividas por afro-descentendes, união de povos (“Eu sou T’Challa, Eu sou Killmonger. Um mundo, um Deus, uma família”), achar o herói que existe em você e girl power.

Esse girl power, que é mais um triunfo do filme e também das histórias do personagem, está representada em um dos elementos mais interessantes do filme: a guarda real, as Dora Milaje, formada por guerreiras que defendem a nação acima de qualquer coisa. A valorização desse poder das Dora é escancarada principalmente pela atuação de Danai Gurira, que não teme em colocar uma lança na cara do seu “amor” para livrar Wakanda da ameaça. As personagens de Lupita Nyong’o e Letitia Wright também representam mulheres fortes, uma espiã e a maior cientista de Wakanda (e talvez do mundo. Chupa essa Stark!), que não medem esforços para defender seu lar. E esse detalhe é muito importante. Elas lutam ao lado de T’Challa, seu rei, mas acima de tudo, são mulheres lutando pela soberania de Wakanda, sua nação, sua terra.

Pantera Negra ainda discute assuntos como abertura de fronteiras, compartilhamento de tecnologia para auxílio daqueles que precisam e nações que viram as costas para os mais necessitados com a desculpa de se preservar. Ao colocar o personagem de Michael B. Jordan, Erik Killmonger, na história como um jovem que vem do gueto, que teve seu pai assassinado e carrega todo o peso daqueles que sofrem na mão do sistema, o filme traz discussões atuais para um filme pipoca. Mesmo que não fique horas falando sobre o assunto, o filme acende a discussão ao percebermos qual a motivação de Killmonger. Ele está completamente errado? Ou só erra pelas vias que o faz?

E se tudo isso ainda não serve de argumento, podemos falar do fenômeno cultural que Pantera Negra se tornou. Antes mesmo do lançamento, a internet estava lotada de vídeos e fotos de pessoas em frente aos cartazes e displays do filme dizendo: esse cara parece comigo. Aquele rei da nação africana e a mais avançada do mundo e que é um super-herói high-tech tem o cabelo, as feições, a cor e o caráter igual ao daquelas pessoas, daquelas crianças. A música do filme é a que eles ouvem. As roupas com as mesmas cores e formas. As lojas passaram a vender roupas, sapatos e brinquedos inspirados na cultura daquelas pessoas. Elas são a bola da vez.

Há quantos anos não se via um fenômeno desse tamanho poder vencer o maior prêmio do cinema, que mesmo desacreditado por muitos, ainda é o que reúne as pessoas para assistir, para fazer bolões e festas. Moonlight foi um filme importantíssimo, mas que pouquíssimas pessoas viram, assim como 12 anos de Escravidão. Corra! trouxe discussões atuais em um filme de gênero, fez sucesso e quase chegou lá. Green Book é um filme bonito, mas que sofre de críticas assim como Histórias Cruzadas. O Infiltrado na Klan é um filmaço e o melhor trabalho de Spike Lee em anos, que também traz uma discussão importante para a atualidade. Mas é Pantera Negra que vai carregar o peso dessa premiação para essa e para as próximas gerações. Será um marco para o cinema e para a cultura pop.

É “só” por isso que Pantera Negra merece um Oscar. Wakanda Forever!

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Cinema, TV e música. Cinéfilo na veia, música em todos os tempos livres e TV naquela hora do sofá.

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