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Um professor da Universidade de NY afirmou em artigo escrito para a The Economist que diretores como Guillermo del Toro, Alejandro G. Iñárritu e Alfonso Cuarón poderiam representar para o cinema americano o que a Nouvelle Vague fez há algumas décadas. Nos últimos cinco anos, os três venceram quatro vezes o Oscar de Melhor Direção. Se o valor da premiação é contestada, o trabalho dos diretores se consolida em diversos gêneros e com o público. Em 2019, novamente veremos um deles sentado (e muito provavelmente subindo ao palco) nas entregas de troféus da temporada. Após o ano de Del Toro, é a vez de Cuarón voltar aos holofotes.

Se Del Toro (O Labirinto do Fauno e A Forma da Água) é o que se mostra mais apaixonado por sua obra e Iñárritu (Birdman e O Regresso) o mais confiante que sua obra é o melhor trabalho realizado (e ele não se faz de rogado em mostrar isso dentro e fora da tela), Cuarón fica com o mérito da técnica e a capacidade de fazer grandes filmes com histórias simples.

O diretor que havia sido indicado ao Oscar em 2003 pelo roteiro de “E sua Mãe Também…” ditou o tom da multibilionária franquia Harry Potter no ano seguinte com aquele que é considerado o melhor filme do personagem: “O Prisioneiro de Azkaban”. Seu trabalho seguinte já mostrava toda a técnica da direção. Com “Filhos da Esperança”, uma de suas parcerias com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, Cuarón conta a história de um futuro em que não existem mais nascimentos de crianças e uma crise de refugiados cria tensão na Europa. O personagem vivido por Clive Owen tem então que levar uma jovem refugiada grávida, em segurança, até um projeto humanitário. Ao longo desse caminho, o diretor cria algumas da cenas mais impressionantes e complexas do últimos anos, como o plano sequência que começa dentro de um carro com uma conversa tranquila e se transforma em caos. A câmera gira mostrando os personagens, sai e entra do carro com toda a facilidade de quem parece ter vários metros quadrados para filmar. A segunda cena, também um plano sequência, mostrando o conflito entre as autoridades e a rebelião afirma todo o domínio de espaço e set do diretor em uma tomada que não aparenta cortes por quase 10 minutos.

A coroação veio em 2013 com uma penca de prêmios e o mar de dinheiro de “Gravidade”. Com a história de uma astronauta que fica à deriva no espaço após um acidente e precisa dar um jeito de voltar para a Terra, Cuarón criou uma experiência cinematográfica utilizando muita computação gráfica e o carisma de Sandra Bullock (e George Clooney nos seus 15 minutos de tela). Ele coloca o espectador ao lado da personagem e várias vezes também dentro da roupa espacial em uma corrida contra o tempo para sobreviver.

Agora, cinco anos depois, Cuarón pode fazer história ao levar o filme lançado para uma plataforma de Streaming ao prêmio máximo do cinema.

Enfim, Roma

A nova história contada pelo diretor tem toques autobiográficos ao mostrar uma família de classe média-alta no México dos anos 1970. A trama é acompanhada pelo olhar da empregada doméstica e babá, Cleo, querida pela família, mas que é sempre lembrada de seu “lugar” na casa. O nome do filme se refere ao bairro onde Cuarón viveu, Colonia Roma, na cidade do México, conhecido por suas mansões. O diretor contrapõe a vida dos patrões e sua casa com diversos quartos e cômodos, com a vida de Cleo em um cubículo e em regiões mais pobres da cidade.

É um momento histórico em que o país passa por agitações populares em protestos contra o PRI (Partido Revolucionário Institucional) e acompanhamos isso seguindo Cleo em uma festa de fim de ano, ao procurar respostas de um ex-amante e no momento mais impactante do filme ao acompanhar o massacre de Corpus Christi (ou Halconazo) que vai se entrelaçar com a trajetória da protagonista. A cena e sua consequência trazem mais uma vez todo o apuro técnico de Cuarón acompanhando uma situação calma, que se torna observadora do caos externo que então passa a integrar o ambiente antes tranquilo. O que se mostra a seguir é ainda mais devastador e hiper-realista. Uma realidade que não é exclusiva do México, mas de quase toda a maioria de seus companheiros latinos.

Todo o brilho da direção de Cuarón é vista em cada plano. O diretor enche a tela a todo momento, mostrando uma cidade viva, movimentada e que diverge dos momentos calmos, de cantoria baixa que Cleo tem quando está realizando suas tarefas. Há um plano em que a personagem corre na frente de várias lojas em que é possível ver pequenos mundos em cada um dos espaços. As calçadas são tomadas por pessoas agindo de formas diferentes e não apenas andando. É impressionante. Assim como a cena da praia ao fim do filme e que merece ser vista sem comentários ou análises.

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Reprodução

Vale destacar a atuação de Yalitza Aparicio que traz toda a dor e sofrimento de sua personagem no olhar, em uma voz embargada e que muitas vezes não é nem possível ouvir com clareza. Da mesma forma, a atriz brilha nos momentos de ternura com as crianças.

A fotografia em preto e branco tira de “Roma” as cores quentes tão clichês ao se retratar um ambiente latino e torna a obra uma experiência crua, dolorida e com toques documentais.

“Roma” é o filme mais intimista de Alfonso Cuarón, mas também é o mais impactante. Dentro e fora da tela. Com o lançamento direto para a Netflix (e em algumas salas de cinema para poder concorrer aos prêmios), o filme já chega com a possibilidade de exibição para milhões de pessoas, sem ter que dividir espaço em salas de cinema dominada por super-heróis, super-robôs e uma super-babá voadora. É uma revolução que terá no próximo ano o nome Scorsese como bola da vez. Mas acima de tudo, “Roma” é uma revolução com alma e contada de forma brilhante pelo diretor.

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