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Publicado originalmente em Hybrido.com.br

No século 18, uma forma de horror teatral utilizava sombras, sons, cheiros, luzes e lanternas para projetar imagens assustadoras e outros estímulos sensoriais na intenção de amedrontar seus espectadores. Alguns shows chegavam a começar na madrugada e ou exigir que a plateia ficasse em jejum para que a experimentação do espetáculo fosse completa. The Lighthouse, novo filme do diretor Robert Eggers, de A Bruxa, poderia ser facilmente encenado em algum teatro na Alemanha do século 18 sob esse selo, a Fantasmagoria.

O fantástico-bizarro permeia toda a história de dois homens que vão morar sozinhos numa ilha para cuidar do farol que ela abriga. Aos poucos, em meio a solidão e muito álcool, começam a caminhar para a loucura. Thomas Wake, o personagem de Willem Dafoe, é a caricatura do velho marujo, que vive à beira dos piers e embarcações bebendo. Já Ephraim Wislow, interpretado por Robert Pattinson, é o novato explorado pelo veterano. Enquanto Thomas dorme, Wislow passa os dias limpando e arrumando as instalações, jogando os excrementos de ambos fora, buscando comida no mar ou consertando o maquinário. Durante a noite, Thomas se isola no farol.

Desde a sua proporção de tela, quase quadrada, até a fotografia em preto e branco, reforçada com um alto contraste, os cortes e a pouca movimentação de câmera, The Lighthouse evoca um cinema antigo. Há diversas cenas sem falas, com os personagens olhando diretamente para a câmera, apenas marcadas pela música e os sons da ilha.

Eggers cria um ambiente claustrofóbico, sujo, suado, barulhento, seja pelas máquinas, pelos pássaros ou pelo som das ondas e das constantes tempestades. Essas sensações, encharcadas pela bebida que Thomas carrega para todos os cantos, vão aumentando a tensão do ambiente e da loucura de Wislow.

Robert Pattinson entrega uma de suas melhores atuações ao enfrentar o personagem de Dafoe. A relação dos dois personagens é baseada na tensão. Do trabalho, do ambiente, do cansaço, do nojo, do corpo e do sexual. O sexo é presença constante na obra, seja em símbolos ou escancarado.

Eggers se utiliza do fantástico: as criaturas bizarras, os animais com atitudes suspeitas, e os sons projetados pela ilha como símbolos da insanidade e do horror que Wislow passa a sentir. Estão eles em sua cabeça ou são providos pelo espaço que habita?

Assim como na Fantasmagoria, o horror de The Lighthouse é sensorial. Mesmo as piadas, que interrompem os momentos de tensão, estão ali para tirar a casca que o espectador vai criando para aguentar o ambiente insalubre e a insanidade dos dois. A plasticidade das cenas deixa a obra ainda mais teatral. A tela se torna então, uma janela para uma humanidade louca e monstruosa. Seja ela real ou não.

Nota: 9

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Cinema, TV e música. Cinéfilo na veia, música em todos os tempos livres e TV naquela hora do sofá.

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