Western Stars

Alexandre Almeida
3 min readNov 18, 2019

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Originalmente publicado em Hybrido.com.br

A carreira de Bruce Springsteen tomou um rumo interessante nos últimos anos. Em 2016, fez o maior show de sua carreira, com mais de quatro horas e lançou sua autobiografia Born to Run. No ano seguinte, estreou seu espetáculo na Broadway. Intimista e longe da sua tradicional E Band, o Boss foi aclamado mais uma vez. Em 2019, sem alarde, lançou Western Stars, disco que segue seu momento de reflexão. Sem comentar o álbum após o lançamento e sem datas para turnê de divulgação, em julho, Springsteen anunciou o lançamento de um filme homônimo, que transitaria entre o documental e o filme-concerto.

Western Stars não é um documentário para recontar a vida e a carreira de Bruce, aos moldes de George Harrison: Living in the Material Word, Metallica: Some Kind of Monster ou Foo Fighters: Back and Forth. Nem mesmo se aproxima do formato doc-show de Shine a Light, dos Rolling Stones. É uma obra complementar ao álbum lançado em junho. Um concerto que passa longe dos estádios e festivais lotados com que o cantor está acostumado. E esse formato é preciso.

Ambientado em um celeiro, com uma plateia minúscula, um bar, banda e orquestra, Springsteen aparece centralizado no palco, sem firulas, apenas se soltando um pouco mais quando sua mulher Patti Scialfa (que o acompanha tocando violão) se aproxima. Entre uma música e outra, o voice-over, gravado pelo próprio cantor, acompanha cenas suas dirigindo, com seus cavalos ou em footages rápidos de sua juventude. Esses intervalos servem para Bruce apresentar as faixas. A cada uma, os personagens vão se transformando cada vez mais em Springsteen, seja o dublê de “Drive Fast (The Stuntman)”, o laçador de cavalos de “Chaisin’ Wild Horses” ou o apaixonado de “There Goes My Miracle”.

O filme-concerto aprofunda a nossa visão ao falar das dificuldades de sair de um determinado personagem que criamos, carros que são metáforas para as estradas que percorremos durante anos em nossas vidas, mudanças repentinas, perdas e dores. Springsteen vai fazendo um paralelo com sua vida e carreira, utilizando símbolos do oeste americano e lembranças que traz desde, por exemplo, os filmes que assistia na sua infância. O tom melancólico das primeiras músicas vai mudando ao passo que o personagem/Springsteen encontra o amor, o que culmina em belíssimos momentos com Patti, tanto nas imagens de arquivo, quanto no palco do celeiro.

Tecnicamente, Western Stars é um show à parte. Assistir aos arranjos e orquestra que acompanham as canções em sistema de som Dolby Atmos, arrepia. É possível ouvir cada instrumento e a voz rouca de Springsteen com uma clareza absurda. Momentos como “Tucson Train”, “Sleepy Joe’s Café” e “Stones” ganham mais força com as versões ao vivo (que já estão disponíveis nas plataformas de streaming). O ponto alto é, sem dúvida, a homônima “Western Stars” que deve encher de lágrimas os olhos dos fãs de Springsteen e do disco.

Western Stars, o filme, é uma obra tão refinada quanto Western Stars, o álbum. É sincero, emocionante e traz o que há de melhor em qualidade de som. Aliás, Western Stars é um dos melhores shows que já assisti. Mesmo que tenha sido sentado e em uma sala de cinema.

Nota: 9

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Alexandre Almeida

Cinema, TV e música. Cinéfilo na veia, música em todos os tempos livres e TV naquela hora do sofá.