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Originalmente publicado em Hybrido.com.br

Imagine que depois de um apagão o mundo todo esqueceu dos Beatles? O você que faria se toda a história de John, Paul, George, Ringo e todas as suas músicas fossem varridas das memórias das pessoas, do Google, Youtube, Wikipedia, mas só você lembrasse? Essa é a excelente premissa de “Yesterday”, novo filme de Danny Boyle, vencedor do Oscar de melhor direção por “Quem quer ser um milionário”, e conhecido por filmes como “Trainspotting”, “Extermínio” e “127 Horas”.

No filme, acompanhamos Jack Malik (o carismático Himesh Patel), um músico que não consegue deslanchar na carreira e que após um acidente durante o apagão, sai do hospital sendo (aparentemente) a única pessoa do mundo a lembrar do quarteto de Liverpool. Essa passa a ser a sua possibilidade de, enfim, alcançar o estrelato.

O grande barato de “Yesterday”, além da trilha sonora que, obviamente, não precisa de comentários, é a discussão em torno da atitude de Jack. Acompanhamos a relutância do músico de se aproveitar de um conhecimento que não é seu, mas que ninguém mais sabe da existência para fazer sucesso. Ao mesmo tempo, é algo que, naquele mundo, nunca aconteceu, então ele está realmente agindo errado?

Quando Jack começa a lançar as músicas, passamos a acompanhar a “beatlemania” vista pela ótica da atualidade, pela internet, os views, os likes e a preocupação com as polêmicas que atingem os famosos hoje. A piada com os nomes dos discos dos Beatles é excelente. Em um momento com tantos sucessos digitais efêmeros, com artistas alcançando milhões de pessoas com apenas uma música e sumindo depois de alguns meses, é interessante pensar como os Beatles estariam inseridos nesse contexto.

Além disso, é possível imaginarmos como os fãs reagiriam aos caminhos que a banda tomou ao longo da carreira, passando do iê-iê-iê para a espiritualidade e a psicodelia. Será que a obsessividade atual dos fãs, que acreditam serem donos das obras, e que esbravejam, xingam, movem petições e ameaçam artistas que tentam mudar ou adaptar as obras, seria capaz de aceitar esse caminho sem promover um linchamento virtual da banda? #QueroMeusBeatlesDeVolta seria uma realidade.

Entretanto, o filme que poderia discutir mais esses temas, se perde com uma arrastada trama de romance entre Jack e Ellie (Lily James), que quebra o ritmo do que o filme toda vez que ele começa a se aprofundar no que tem de melhor. É o tipo de história que já sabemos como vai acabar e não acrescenta em nada ao arco do protagonista.

“Yesterday” é um filme de muitas qualidades. Na sua premissa, estética, nostalgia e que tem muito o que falar. Mas erra e acaba desviando do caminho. É uma pena. Poderia ser um dos filmes mais memoráveis com as músicas dos Beatles e uma excelente discussão sobre o valor da obra de um artista, sua importância cultural e quais as responsabilidades e direitos de quem possui algo tão universal. “Yesterday” prefere ficar antes disso, no sucesso efêmero, na playlist do Spotify que diverte, mas daqui a pouco tempo será substituída por outra mais “na moda”.

Nota: 6.5

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Cinema, TV e música. Cinéfilo na veia, música em todos os tempos livres e TV naquela hora do sofá.

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