Bruce Springsteen — Letter to You

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Quem me ouve falar sobre Bruce Springsteen pode até achar que sou fã do cantor há muitos anos. A verdade é que não tem tanto tempo assim que admiro seu trabalho. No Rock in Rio 2013, por exemplo, não fiquei até o fim para assistir o show. Ô arrependimento… mas a hora de encontrar o Boss ao vivo vai chegar.

Na verdade, foi depois desse dia que passei a ter mais contato com músicas de Springsteen, shows no YouTube, fui ouvir “Born to Run”, “Born in the U.S.A”, “The River” e “Darkness on the Edge of Town”. Mas foi com “Western Stars”, disco de 2019, que Bruce entrou de vez na minha vida. Foi a partir dali que passei a ouvir mais, ler, pesquisar, conhecer sua história e, enfim, entender sua importância para a música. Fui assistir o documentário/show homônimo, dirigido pelo próprio Springsteen e Thom Zimny, em uma sessão à uma da tarde, só eu e mais umas duas ou três pessoas. A experiência foi fantástica e falei mais sobre ela aqui.

“Western Stars” passou a ser parte do meu dia a dia no último ano. Cheguei a fazer um projeto final da aula de fotografia baseado no disco, traçando um paralelo entre o que as músicas e o próprio cantor queriam dizer, com a minha mudança para o Canadá.

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Logo, quando o anúncio de um novo disco de Springsteen saiu e ainda com a notícia de que ele havia gravado com a banda que o acompanha há décadas, a E Street, a empolgação foi na altura. Um disco gravado em apenas cinco dias e “ao vivo em estúdio” (todos tocando junto, não um instrumento por vez e depois o vocal em cima da base). Ah, e alguns dias depois do anúncio, o cantor informou que um documentário com bastidores da gravação sairia na Apple TV+. O hype explodiu de vez!

Primeiro single lançado foi bacana. O segundo, “Ghosts”, melhor ainda. E eis que quando o disco saiu mesmo: foi legal, mas não tudo que eu esperava. Mais uma ouvida e a mesma coisa. Na terceira, consegui escolher as músicas que mais gostava, mas ainda não era aquilo que eu queria ouvir. Já estava acostumado com a idéia e fui assistir “Letter to You”, o documentário.

Com uma fotografia em preto e branco, acentuando a neve que caía em New Jersey, em novembro de 2019, o documentário segue a linha que Springsteen e Zimny fizeram em “Western Stars”. Bruce explica o sentido das músicas e as ideias que o levaram a escrevê-las em off e, ao fim de cada segmento, a apresentação de uma das canções. A diferença é que, no filme (e álbum) de 2019, a jornada do cantor é mais íntima. Ele fala sobre sua vida pessoal, seus demônios. Em “Letter to You”, essas mesmas coisas envolvem amigos do passado de Bruce e seu relacionamento com a E Street.

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As músicas do novo disco foram criadas por Springsteen em um momento de “meditação”, como ele mesmo diz, após a morte de um ex-companheiro da sua primeira banda: The Castiles. Bruce é o último integrante da banda que ainda permanece vivo. Aos 71 anos, o cantor começa a “sobrar” no mundo. Logo, as novas canções refletem sobre morte, idade, tempo que passou e perdas.

Se essas reflexões não foram tão poderosas na primeira ouvida, assistir Springsteen explicando seus pensamentos e interagindo com os companheiros, torna o novo trabalho um legado forte para a sua carreira. É o relato de um homem conhecido por shows de mais de três horas, da vitalidade, do suor, dizendo: todos temos a nossa hora.

É no segmento de “I’ll See You in My Dreams” que o documentário tem o seu momento mais emocionante. Um momento em que após todos ouvirem a música juntos, um silêncio toma o estúdio que até então é mostrado movimentado e barulhento. Todos ali sentem o verso que diz: “Eu vou te ver nos meus sonhos / Quando todos os verões chegarem ao fim (…) Pois a morte não é o fim / Eu vou te ver nos meus sonhos”. Perder alguém querido ou questionar como será o fim são sentimentos universais. Quando a canção acaba, estamos todos juntos de Springsteen e da E Street naquele brinde.

“Ghosts” e “Letter to You” são os momentos mais empolgantes do documentário e do disco, assim como “Burnin’ Train”, que encerra o filme. As conversas e trocas de ideias sobre as músicas e arranjos poderiam ter mais tempo de tela, o que humanizaria ainda mais aquelas pessoas dentro do estúdio. Todos são profissionais extraordinários e lendários. Vê-los entendendo um ao outro, descobrindo as novas canções e pensando nos arranjos é um deleite.

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O final traz uma reflexão de Springsteen sobre aceitar o que está por vir e seguir o caminho. A mensagem traz uma melancolia maior ainda quando pensamos na época que a obra foi lançada: no meio de uma pandemia e com todas as vidas perdidas ao redor do mundo. E ainda, alguns momentos antes, vemos Bruce e toda a trupe brindando e pensando em um show de abertura da turnê no San Siro, na Itália. Um pensamento simples e realista em um tão distante novembro de 2019.

Em novembro de 2020, fica a esperança de que tudo se resolva logo e que possamos em breve curtir “Letter to You” ao vivo e não apenas na TV ou nos nossos sonhos. O Boss ainda tem muita estrada pela frente.

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Cinema, TV e música. Cinéfilo na veia, música em todos os tempos livres e TV naquela hora do sofá.

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